"Deus tem agora um sério concorrente" (Epitáfio para um sociólogo, José Paulo Paes)

PÁGINAS

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O DUALISMO SIMPLÓRIO

Mais do que criar produtos necessários à sobrevivência, o sistema de produção capitalista é um sistema produtor de novas e constantes necessidades. O mesmo pode se dizer das novas tecnologias de informação e comunicação com suas redes sociais, elas são produtoras de novas e constantes informações. Um bom volume delas, para não dizer quase a totalidade, formam um montante de informações inúteis.


A última polêmica das redes sociais está na questão de dividir o mundo em dois, gerando e enxergando dualidade em tudo. Dualidade, segundo o AULETE, dicionário contemporâneo da Língua Portuguesa, significa a característica do que é dual ou duplo, ou do que contém em si duas naturezas, duas substâncias, dois princípios. A partir disso, uma filosofia (com "m" minúsculo") concebe um mundo de dualismos, o que segundo o mesmo dicionário sugere uma realidade e natureza humana divididas em dois princípios fundamentais e antagônicos, como bem e mal, essência e existência, matéria e forma, corpo e espírito etc.

É nesse ponto que nos interessa as disputas, em forma de brincadeiras, que nos últimos meses vem tomando conta da redes sociais, onde dois lados disputam para ver qual deles é o melhor, tem mais qualidades, desqualificando sempre o outro lado. Nescau X Toddy; Team Capitão América X Team Homem de Ferro; Marvel X DC Comics; Bolacha X Biscoito; Esquerdistas X Conservadores; Rio de Janeiro X São Paulo; Corinthians X Palmeiras; Dilma X Temer; Ateu X Cristãos; Burguer King X McDonald's; enfim, uma lista infinita.

Como no velho ditado, toda brincadeira esconde, no fundo, algumas verdades que não costumamos ou não queremos enxergar, mas que pode revelar situações mais sérias e profundas.


A CONCORRÊNCIA QUE DÁ LUCRO

A primeira delas é que, as empresas de marketing, sacando o velho potencial da mentalidade maniqueísta das pessoas, exploram essas disputas ao máximo. A máxima de escolher o melhor dentre todos é levada a sério para conquistar novos consumidores, fiéis consumidores e mais do que isso, consumidores propagadores do próprio produto.



A empresas passam a poupar em muito com propaganda uma vez que essas disputas surgem, e não espontaneamente, viralizando por toda rede, sem a necessidade de campanhas espetaculares ou somas milionárias para comerciais na TV aberta.

Basta espalhar um boato, gerar a "discórdia amiga" numa sociedade que já vive em discórdia e pronto, receita do sucesso.

Não à toa que, a rede de fast food Bob's aproveitou o momento e contratou a galera do Porta dos Fundos para fazer um  longo comercial brincando com toda a situação envolvendo seu famoso milk shake.


A recente polêmica, envolvendo os achocolatados está sem dúvida rendendo alguns milhões à mais para as empresas que tem apenas o trabalho de lotar as prateleiras e observar os seus produtos sumirem, numa concorrência entre os próprios consumidores



A POBREZA DO MUNDO DUAL

Mas, o mais preocupante, pelo menos para este que vos escreve, é como a visão e concepção de mundo das pessoas empobrece as relações sociais e a maneira como cada enxerga a realidade social.

Atualmente, essa visão tende a tudo dualizar, dividir em dois, em transformar a vida em um contra e à favor, em um certo o outro errado, um bom e um ruim, e assim vai indo. O mundo, dentro dessa configuração torna-se pobre e, principalmente, um campo de batalhas sem fim e propósito.

O que move as pessoas é perceber que as coisas são um simples jogo de contrários do meu contra o seu, e deixam de lado a complexidade da vida, da sociedade e da própria natureza humana, esta dotada de uma complexidade infinita, mas que não passa de um sim ou não na visão dos dualistas.

Ricardo Reis, um dos heterônimos de Fenando Pessoa expressava: "Vivem em nós inúmeros", mas para o dualistas, existem apenas um ser simplório e restrito, que pode escolher apenas dois caminhos, o do bem ou do mal. Fora isso, não há outra existência possível. Somos Toddy ou Nescau, como rótulos de produtos, com características pré determinadas e especificadas na embalagem, se fugirmos disso, seremos condenados pelos próprios dualistas, que se unirão para atacar e destruir o direito de ser múltiplo, de poder misturar, de se transformar, de não ser nem isso ou aquilo, de viver plenamente a complexidade de uma vida, que não é um produto qualquer.

Poema de Ricardo Reis

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