"Deus tem agora um sério concorrente" (Epitáfio para um sociólogo, José Paulo Paes)

PÁGINAS

terça-feira, 30 de outubro de 2018

O SILÊNCIO DOS INOCENTES?

A INOCÊNCIA QUE MATA

O cenário político é de pura tensão e será, não sei por quanto tempo, mas isso é certeza. Não coloco aqui como um desejo maligno que embasa a pensamento do "quanto pior melhor", apenas expresso a análise conjuntural de um processo que a história nos mostra os caminhos. O primeiro erro, ao meu ver, dos brasileiros, é rejeitar toda a história. Sim, somos um povo a-histórico e a consequências disso é trágica, pois vivemos num looping que nos faz repeti-la e como bem lembra Marx, sempre de forma trágica.

Porém, esse texto é direcionado aos neutros, aos que não tomaram ou não tomam partido, ao que não querem se envolver, que ficam em cima do muro, apenas na torcida para que "tudo dê certo".

Em um texto de 1917, o intelectual italiano Antonio Gramsci (1891-1937) escreveu um texto sobre os indiferentes. Nele, Gramsci é categórico, odeio os indiferentes. Segundo o intelectual, viver é assumir uma postura, tomar partido (nesse para além da questão partidária). Ser indiferente é ser um peso morto na história, a bola de chumbo que afunda aqueles que têm o entusiasmo de viver.

A indiferença tem um atuação importante na história, mesmo que passiva ela permite com que as situações aconteçam, pois, no geral, eles são a maioria. Uma maioria que provocam tédio com um discurso neutro e manso, que fica na janela, apenas observando, enquanto outros se sacrificam em nome do todo.

De forma muito simples, podemos fazer alusão aos trabalhos em grupos onde sempre tem grupos ativos, mesmo que divergentes, mas existe o grupos dos que não se manifestam e que por isso prejudicam muito mais o trabalho, pois precisam ser carregados, precisam serem aturados com sua apatia e desinteresse.

Na política, essa indiferença assume uma atuação de comportamento pacto, de uma ingenuidade infantil que, na inversão, culpabiliza aos que se assumem e tomam uma postura. 



A HISTÓRIA É VIVA COM MUITAS MORTES


Nas eleições que deram a Jair Bolsonaro, com mais de 57 milhões de votos, Fernando Haddad ficou em segundo lugar, com com um pouco mais de 47 milhões de votos. No total, foram cerca de 105 milhões de votos válidos, mas os votos brancos, nulos e as abstenções chegaram a 42 milhões, ou seja, daria para mudar o rumo da eleição.

A escolha foi democrática e isso não se questiona, pois a centro da questão está relacionado a algo que ultrapassa o próprio campo da política, que está relacionada à figura do presidente eleito, suas declarações, sua postura em temas importantes para a sociedade e tudo mais que cerca a figura de Bolsonaro e que não cabe aqui relembrar já que tudo isso foi o ponto principal de toda a disputa.

Acontece que o discuso de ódio, de violência e agressivo de Bolsonaro cativou uma legião de fãs cativos, que seguindo quase que uma ordem suprema começara a reproduzir de forma igualmente violenta o discurso do grande mestre, além de ostentar essa violência deliberada por toda a sociedade. 


VOCÊ É INOCENTE?


Rebatendo o discurso que há uma torcida contra, podemos dizer que não, na verdade temos é um cenário sombrio, onde a violência com ligações fortes ao empoderamento dos eleitores de Bolsonaro fervilha na redes sociais.

Em menos de 24 horas após a eleição, um número grande de vídeos de pessoas ostentado armas e até mesmo dando tiros para cima foi registrado; na Avenida Paulista, cartazes do torturador e assassino Carlos Brilhante Ustra foi erguido em ritmo festivo; um menino de 08 anos morreu com um tiro na cabeça enquanto o pai comemorava a vitória do "mito"; 141 jornalistas receberam ameaças; casos de ameaças e agressões foram registrados; um rapaz postou vídeo no Instagram dizendo que ia votar aramado e comemorava dizendo que iria começar a matar "a petralhada e os que tivessem de vermelho" e, ao ver um rapaz na moto, disse: "vamos matar essa negrada" (o escritório onde ele trabalhava o demitiu ao ver as imagens); um rapaz postou um foto com uma arma dizendo: "e aí vadia, tá com medo?" ( a repercussão do caso fez sua mãe fazer um vídeo se desculpando pelo filho); dezenas de homens armados, num clube de tiro, registraram cena atirando de forma frenética para comemorar a vitória do candidato; uma ex aluna, que é atriz, recebeu um vídeo de ofensa às atrizes, dizendo que eram todas "putas"; sem que falar que, até o dia 11 de outubro, mais de 50 ataques foram registrados tendo como protagonistas os eleitores do mesmo.

Não é teoria da conspiração, mas o seu discurso motiva o ódio e de uma certa forma empodera essa massa, e isso não é apenas com Bolsonaro, mas com todos que historicamente tem em sua base essa violência discursiva.

Diante disso, não existe uma inocência, pois quando descobre-se que crianças em aldeias indígenas estão morrendo pela disputa de terras, onde os donos do agronegócio são autores declarados da carnificina, sua neutralidade é manchada de sangue.

E engana-se que essa inocência é melhor que aqueles que assumem o lado da violência, pois a passividade e o silêncio é como uma declaração de individualismo, alienação e empatia com o outro.

Para rebater o discurso fácil que é encoberto com o manto da religião, onde a preces pedem para que Deus ajude, é sempre bom lembrar que nenhuma entidade tem culpa e muito menos pode se esperar delas uma ação, pois esta parte das pessoas.


NUNCA DIGAM, ISSO É NATURAL!

Em um poema do dramaturgo Bertold Brecht, ele pede com urgência para que não naturalizemos a realidade social, deixando que o autoritarismo, ódio, a violência e a barbárie tome conta.

Brecht nos alerta contra a ideia de que o fluxo das coisas obedecem um ordem natural, onde apenas assistimos como espectadores passivos, sem reagir, acreditando que a natureza resolverá as questões.

De fato isso que está por trás do discurso inocente e neutro, ele entrega a resolução dos problemas a terceiros, a entidades divinas e à própria sorte, numa tentativa de se livrar de toda e qualquer responsabilidade.

Porém, o motor da história não para nunca, ele continua a funcionar através de outros tantos que têm seus interesses e que por eles não pensam duas vezes em derramar o sangue em nome de suas causas.

Da mesma forma que levantamos todas a manhãs para trabalhar, estudar, pagar contas, tomar atitudes para que a nossa vida funcione, na consciência que só é possível da sequência da vida através da atitude, da mesma forma ocorre com o jogo político e a realidade. 

Ambas as questões necessitam de uma atitude, de uma postura, de um enfrentamento, de elementos provocativos que façam com que as coisas se resolvam.

Sendo assim, ninguém é inocente e todos somos culpados se não nos manisfestamos e tomamos uma atitude. Assim, aconteceu com Europeus nas fogueiras da Inquisição, com os alemães que permitiram os campos de concentração, com os russos que não denunciaram os horrores dos regime comunista, com os brasileiros que não se manifestaram diante dos mortos da ditadura, entre tantos exemplos de barbárie da história.

Então, diante disso, a pergunta que fica: VOCÊ VAI PERMANECER NA NEUTRALIDADE? 

terça-feira, 9 de outubro de 2018

TO MY FRIENDS

O QUE APRENDI ASSISTINDO FRIENDS


Cada vez  mais venho tendo a certeza que, o direcionamento ao simples é fundamental para uma vida melhor, e quando falo no simples quero deixar bem claro que há uma amplitude do tema que não vou me deter em explicar nesse texto.

Certo dia, eu, numa situação extremamente complicada recebi uma indicação de uma amiga que foi a seguinte: "Assista Friends que você vai amar, dará muita risada". Confesso que tinha preconceito com essa série em específico, mas decidi aceitar a sugestão.

O vício foi logo no primeiro episódio e, durante alguns meses virou mais que passatempo, mas uma válvula de escape que me ajudou com a depressão e a ansiedade. De repente, quando eu me via em recaídas ou momentos de tristeza, simplesmente deixava as preocupações de lado e me alienava em assistir a essa série de um humor simples, pastelão, mas muito cativante.

Meus amigos foram ensinando coisas ao longo das dez temporadas e, não obstante, alguns momentos trágicos da minha vida passavam na série. E eu, finalmente conseguia dar risada.

Aprendi com a Rachel Green que é possível amadurecer, ser alguém melhor e menos superficial. Com a ingenuidade de Joey Tribbiani, aprendi que devemos ser fiéis àqueles que estão ao nosso lado e que muitas vezes uma dose de ingenuidade é boa, pois nos faz humanos de fato. Já com a Phoebe Buffay, percebi que tem horas que meter o louco é a melhor forma e que não dá para encarar a vida sem um pouco de insanidade. Com Chandler Bing percebi que por pior que as coisas estejam, fazer piada da situação é sempre o melhor remédio. Com a Monica Geller, vi que o perfeccionismo, o desejo de ter uma vida organizada é fundamental para mantermos um cuidado não apenas com nós, mas com os que estão à nossa volta. E com Ross Geller vi que nem sempre as coisas saem como queremos e mesmo quando o amor da nossa vida se vai, seguir em frente é fundamental. 

Mas, o que mais aprendi em Friends foi que nada supera o valor das amizades. Ter amigos é a melhor coisa que uma pessoa pode cultivar em sua vida. Eles estarão sempre com a gente e, nas horas mais difíceis, o que sobra são as amizades.


Obrigado meus amigos por me ajudarem. E, como sempre dizia, ao longo das temporadas, "obrigado por salvarem minha vida".

Obrigado minha amiga Virginia, que me indicou a série e que está sempre comigo.


Obrigado a todos meus amigos!

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

SOBRE EDUCAÇÃO E RESISTÊNCIA

SER PROFESSOR É RESISTIR E IR NA CONTRAMÃO EM NOME DA EDUCAÇÃO

Discurso final da Profª Carmem no encerramento
dos trabalhos apresentados
Entre os dias 10 a 19 de Setembro aconteceu, na escola onde trabalho, um daqueles projetos fantásticos, organizado e liderado pela minha grande amiga Carmem, professora de Biologia e Ciências.

Dentro de uma proposta interdisciplinar, os alunos do 1º ano do Ensino Médio foram convidados a apresentar trabalhos com três temáticas importantes: a violência contra a mulher, a gravidez na adolescência e o problema das doenças sexualmente transmissíveis.

Cada sala apresentaria esses temas de formas variadas, através de cartazes, produção de vídeo, seminário e produção da pesquisa por escrito, aos moldes de um trabalho de conclusão de curso.

O projeto envolveu professores de várias áreas, onde cada temática seria discutida de maneira ampla e interdisciplinar.

Bom, à primeira vista tudo perfeito, se não fosse os "pequenos" detalhes.

Apresentar um trabalho desse nível, com temáticas de extrema importância, atualíssimas e fundamentais pode parecer algo mais do que necessário, além de óbvio, já que estamos em uma escola e o papel dela é justamente esse, a formação para a cidadania e a plena condição humana.

Porém, logo de cara uma série de negativas surgiram. Os "nãos" tomaram conta, desde da falta de recursos necessários, até as proibições impostas por instâncias superiores que pouco ou nada entendem de educação. Executar um trabalho de tamanha magnitude é tarefa árdua e arriscada, pois os problemas externos interferem diretamente no trabalho de professores e alunos fazendo com estes fiquem à mercê da própria sorte.


A EDUCAÇÃO NA CONTRAMÃO 


Diante de várias negativas impostas e de diálogos inexistentes que impedem o pleno trabalho de professoras e professores, ir na contramão é a saída. E não é isso que se tornou a Educação?

Cada vez mais a profissão docente vem se transformando numa profissão marginal, alternativa, outsider. Infelizmente, há muito tempo, tudo o que dá certo na escola ocorre simplesmente pela atitude que determinados profissionais da educação têm em não seguir as regras impostas, em ir à favor do bom senso, seguindo o próprio senso de responsabilidade e, principalmente, agindo me nome de um consciência crítica necessária para a transformação.

Os trabalhos foram apresentados com sucesso, onde talentos foram descobertos; conhecimentos foram apresentados e adquiridos; a motivação dos alunos fizeram com que houvesse um trabalho colaborativo entre os próprios; nenhuma ocorrência foi registrada; os demais alunos das outras séries se sentiram motivados e aprenderam muito com os alunos que estavam apresentando; enfim, foi algo sublime, único e que só a Educação pode proporcionar.

A profissão docente exige cada vez mais que estejamos na contramão, quebrando regras, nos arriscando em nome daquilo que se acredita.
O trabalho proporcionado pela professora Carmem é o que faz a diferença na escola e na vida dos alunos, é aquilo que nos motiva e nos faz entender porque devemos seguir em frente, mesmo com todos os "nãos" que recebemos diariamente.

Parabéns Professora Carmem!
Parabéns alunos do 1º Ano do Ensino Médio!
Vamos seguir sempre na contramão em nome da verdadeira Educação!!!
 


segunda-feira, 17 de setembro de 2018

ELE NÃO, MAS E OS OUTROS?

BOLSONARO NÃO VENCERÁ AS ELEIÇÕES, MAS SERÁ QUE ELE SAIRÁ DERROTADO DE FATO?


Em primeiro lugar alerto que esse texto está sendo escrito de forma orgânica, sem buscar números, dados, estatísticas e outros elementos que ofereçam a ele uma fidelidade das informações apresentadas. Sua proposta é de uma reflexão de extrema importância, a saber, o efeito Bolsonaro após as eleições.

Um movimento vem tomando corpo e despontando como o momento histórico dentro do cenário eleitoral. A rejeição ao candidato Jair Bolsonaro é sem dúvida algo mais do que relevante, demonstra que uma parte significativa da sociedade rejeita totalmente seu discurso do ódio e tudo que está representado em suas declarações.

A questão central ao meu ver é pensarmos sobre os que apoiam direta ou indiretamente, sobre os altos índices de eleitores que realmente acreditam nas suas propostas e sustentam essa figura que é a personificação de uma mentalidade que existe, tomando forma e conteúdo por meio de ações e práticas cotidianas.

Bolsonaro não ganhará a presidência por meio do voto, mas será que ele realmente sairá derrotado dessas eleições?

Pensar nos milhões que pensam iguais a ele, ou que, de alguma forma "meio que concordam" com alguma coisa que ele diz é simplesmente aterrorizando. 

Significa que ficaremos livres do grande chefe, mas não nos livraremos de seus seguidores. O discurso machista, homofóbico, racista, ignorante, violento e opressor permanecerá e, então, dois cenários despontarão. De um lado, um possível fortalecimento de grupos de extrema direita que, mirando as próximas eleições irão se estruturar a partir de uma organização mais sólida. De outro lado, o silêncio pós-eleitoral se transformará em práticas intensificadas nas relações microssociais. Nesse último cenário, a guerra de todos contra todos hobbesiana será instaurada.
O movimento #EleNão #EleNunca, as milhões de mulheres organizadas contra tudo o que esse sujeito representa é algo magnífico, de uma força extraordinária, como só as mulheres conseguem. Afinal, em todos os grandes movimentos de luta e resistência elas foram e sempre serão as protagonistas

Porém, como dissolver o ódio instalado, a intolerância latente, a mentalidade racista, a resistência ao conhecimento e a ignorância generalizada?


Só o discurso contrário e as ações de resistência não funcionarão para quebrar o núcleo do ódio. Como professor, acredito no poder da Educação. Mas, em um país de educação sucateada teremos muito trabalho pela frente. Em algum momento os grupos de consciência deverão buscar, através do diálogo, meios de vencer o ódio e a irracionalidade extremista instalada, caso contrário, a barbárie tenderá a um crescimento exponencial levando o país literalmente ao caos.  

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

CURRÍCULO DO FRACASSO

VOCÊ JÁ ESCREVEU SEU CURRÍCULO DE FRACASSOS?


Ao fazer nosso currículo sempre destacamos todos os aspectos positivos de nossa experiência profissional, acadêmica e pessoal. Colocamos nele tudo o que é considerado importante, que nos dará destaque frente aos demais e nos transformará em pessoas únicas, com grandes feitos, conhecimentos importantes para a sociedade e, enfim, que irá nos valorizar. 

Nosso currículo, mesmo nos círculos de conversa entre amigos, colegas de trabalho e de faculdade é sempre uma coisa de dar inveja. Quem frequenta os grupos de pós-graduação de uma grande universidade, por exemplo, até se assusta. Não há um fracassado sequer, nada que desabone ou que mostre o insucesso.

Mas, de que vale isso para a vida em sua totalidade? A resposta é, quase nada.

Na soma de nossas vidas o que conta mais são nossos fracassos, as perdas, os caminhos errados, os empreendimentos que não deram certo. Em resumo, tudo aquilo que não vai no nosso currículo.

A soma de diplomas, cursos, grandes feitos e conquistas escondem aquilo que de fato interessa, os nossos fracassos, que irão resultar em grandes experiências.

Não, não caro leitor, não estou fazendo uma apologia à derrota. Longe disso. Apenas estou dizendo que aprendemos muito mais com os nossos fracassos, as perdas, as nossas dores, do que com os caminhos triviais que todos seguem.

Muitas vezes, lamentamos uma separação, por exemplo, um drama para qualquer casamento. Mas, é nessa trajetória da separação que aprendemos a dar valor, a mudar nossa postura, a trilhar novos caminhos, a nos desprender do lugar comum ao qual estamos.

E no trabalho? Já imaginou por quantos empregos você já passou e que não deram certo? Ao final, não juntou dinheiro, não fez o pé de meia, muito menos subiu de cargo. Mas trouxe histórias, experiências únicas que você irá carregar e que tornarão mais humano.

O filósofo alemão Nietzsche já dizia que, aquilo que não mata os fortalece. E é justamente esse currículo oculto do fracasso que possibilita essa força. É ele que nos coloca diante da realidade. Escondê-lo é um erro que muitos comentem. Primeiro por uma questão de ego, de imposição social. Segundo, porque fugimos da realidade, imaginamos e fantasiamos sempre um sucesso que de fato não existe e nunca existiu.

Diante disso, travamos um duelo estúpido para ver quem tem mais diplomas que de nada servirão; quem fez viagens lindas visualmente, mas que não trouxe experiência alguma; quem é mais feliz aparentemente, sem conseguir demonstrar a dificuldade que é manter uma aparência de sucesso; enfim, a lista é enorme.

Expor o currículo do fracasso pode nos mostrar que, aquilo que não deu certo, no fim, é o que acabou dando mais certo.

***Dedico esse conceito ao meu querido e estimado amigo e grande intelectual Wilson Luques, dono dessa expressão. Quando ele falou sobre isso, confesso que achei demais e comecei a valorizar minhas experiências, independentes de serem boas ou ruins. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

QUANDO A TRISTEZA NÃO É MAU NEGÓCIO

DIVERTIDAMENTE É UMA ANIMAÇÃO QUE NOS ENSINA MUITO SOBRE NOSSOS SENTIMENTOS E A IMPORTÂNCIA DE CADA UM DELES


É claro que você já teve aqueles dias difíceis de profunda tristeza, pior, já sentiu raiva de alguém ou alguma situação especifica e, sem falar no medo, velho companheiro que nos assombra e atrasa a nossa vida.

Numa sociedade hedonista, onde a felicidade é um bem supremo, onde esses sentimentos são tidos como errados e a todo momento são combatidos. E o que não falta são as mensagens de auto ajuda, de determinação e superação. "Não fique triste", "isso é coisa sua", "Ah! Não gosto de gente assim", "sentir raiva de alguém é ruim", enfim, umas série de frases que povoam nossa mente e que ajudam nessa culpa.


No longa metragem animado DivertidaMente esse mito é quebrado, de uma forma muito delicada e com uma mensagem forte.

Na trama, Riley é uma garota de onze de idade que tem que lidar com a mudança de cidade e a separação dos amigos, da casa onde passou a infância e todas as lembranças que fizeram sua vida feliz.

Em seu cérebro a Alegria, a Tristeza, a Raiva, o Medo e o Nojo são representados por personagens de temperamento marcante. 

A Alegria, representada por uma linda menina de cabelo azul tenta dominar a cena, não aceitando a participação dos outros sentimentos, o que vai gerar uma grande confusão ao longo do filme.

A mensagem central que fica é da importância dos sentimentos em nossas vidas, mesmos aqueles que sofrem de má reputação, como no caso da Tristeza. Saber dar espaço aos sentimentos, respeitá-los e tentar compreende-los é fundamental para manter o nosso equilíbrio mental, para o enfrentamento de desafio e para nossa autodefesa.

Afinal, o que aconteceria se fossemos alegres o tempo todo ou rejeitássemos todos os outros sentimentos? Não alcançaríamos a maturidade necessária e a capacidade de viver a realidade. Fugiríamos constantemente de situações desagradáveis e com isso limitaríamos nosso campo de atuação, além de não saber lidar com as mudanças.

Muitas vezes ficar triste é necessário, aceitar esses momentos, chorar, reservar espaço para se expressar de modo triste é importante para uma reflexão.

E a raiva? Isso é bom?

Sim, na medida certa é bom, assim como sua liberação. O mantra tão repetido de que não devemos sentir raiva é perfeitamente normal. Gritar de vez em quando, xingar, "dizer na lata" aquilo que sentimos nos libera de uma carga emocional que não podemos segura.

Assim como o nojo e o medo que nos colocam numa zona de segurança importante. DivertidaMente mostra de maneira muito didática que nossos comportamentos são apenas a ponta do iceberg, modelados pela influência cultural. Dentro de nós há um universo complexo, um enorme arquivo onde tudo é guardado e arquivado em instâncias da nossa mente.

Da mesma forma que existem memórias que precisam ser apagadas, como na cena em que o amigo imaginário de Riley desaparece. Isso acontece com memórias de traumas e de acontecimentos sem importância, onde suas recordações criariam uma sobrecarga em nosso cérebro.

Aprender a lidar com os sentimentos é condição para o nosso amadurecimento, entender esses mecanismos nos ajudam a sermos pessoas melhores para nós mesmos e para os que estão à nossa volta. 

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

A POLÍTICA IMPOSSÍVEL

O FAZER POLÍTICA É ALGO REALMENTE POSSÍVEL PARA UMA SOCIEDADE ALIENADA?



A rotina é a mesma. Milhões de pessoas acordam cedo, saem de suas casas, enfrentam um dia atribulado em transporte precário, condições de trabalho estafante, toda a pressão social comum a um tipo ideal (Max Weber) de indivíduo comum.

Ao chegar em casa, essas milhões de pessoas irão dividir o tempo que sobra em atividades e problemas domésticos, conflitos e questões pessoais e, finalmente, ao descanso tão merecido.


A pergunta que fica é: como essas milhões de pessoas irão participar da política do seu país?


A resposta nessa caso seria a de que dificilmente irão participar, pois, o modelo de sociedade ao qual esses indivíduos estão configurados dificilmente lhes permitirá tamanha façanha.


Aristóteles já considerava o "homem" como um um "animal político". Epistemologicamente a  palavra política está intimamente ligada à pólis, a cidade, local e espaço que seria o palco de exercício da política. O cidadão, segundo Aristóteles, seria o habitante da cidade.

Contraditoriamente, a cidade é que irá eliminar a condição do exercício político, pois é nela que a lógica da alienação se impõe como fator central de organização da sociedade.

Sendo assim, a concepção de Marx está correta quando argumenta que a organização por meio do trabalho alienado condicionaria todos outros espaços e relação dentro de uma organização pautada pela alienação (veja vídeo explicativo do conceito aqui).

Para a participação política é necessária uma educação para a política e não coloco aqui a questão da educação formal apenas, mas de espaços que permitiriam a plena reunião dos cidadãos em discussões e reflexões sobre a política. A análise partindo de leituras e, com isso, possibilitar a crítica e auto-crítica como condição sin qua non para que realmente as pessoas pudessem participara da vida pública.

Mas, como fazer isso se a alienação social é uma realidade posta? Não se faz, simples assim.

O que temos é uma multidão imersa numa condição alienada, incapaz de refletir criticamente de maneira ampla, avulsa nos esquemas que organizam a política.

Entender os meios de participação, as leis, os deveres, desenvolver a sensibilidade para vida coletiva são elementos distantes para aqueles na qual o único objetivo é conseguir sobreviver ao fim do mês (veja música de Raul Seixas).

A alienação social retira dos indivíduos a sensibilidade de perceber o outro, de ir além daquilo que é posto como certo e dos caminhos rotineiros.

Dessa forma delegamos à política e aos políticos a tarefa de resolver nossos problemas à "toque de caixa". Pena de morte; bandido bom é bandido morto; mais emprego é a solução; menos direito para desburocratização; liberdade ao mercado; controle total; imposições morais às condutas divergentes; enfim, resta aos indivíduos alienados a busca por saídas que retirem deles próprios a cobrança de participação.

Uma política verdadeira só será possível com o rompimento da condição alienada imposta, o despertar da consciência crítica em conjunto com atitudes, o enfrentamento para a participação e o ocupação de espaços que a própria organização social restringe.

Caso contrário, diante desse cenário,  o fazer política na concepção ampla e eficaz torna-se algo um tanto quanto impossível.

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