"Deus tem agora um sério concorrente" (Epitáfio para um sociólogo, José Paulo Paes)

PÁGINAS

segunda-feira, 27 de maio de 2019

O BOLSONARISMO É UMA RELIGIÃO POLITEÍSTA

O QUE VIMOS NAS MANIFESTAÇÕES EM DEFESA DO GOVERNO FOI UM VERDADEIRO CULTO A UMA SÉRIE DE DIVINDADES, DISTANTE DE SEREM DE FATO UM ATO POLÍTICO EM SUA ESSÊNCIA


As manifestações, ocorridas no último dia 26/05, em defesa do governo Bolsonaro foram maiores que se esperava, mesmo sem a mesma expressividade das manifestação contrária ao seu governo e suas medidas (afetando setores da educação e da previdência social). De qualquer forma, possibilita ao governo perdido, tempo para respirar e pensar em como sair das armadilhas que ele mesmo criou nesses poucos meses.

O que ocorreu no último domingo em todo Brasil foi um fenômeno sociológico curioso. Longe de ser uma manifestação puramente política, o público presente em várias cidades do país, e presente em todos estados, promoveu um culto gigantesco, onde Deus era um acessório para os demais deuses presentes. Afinal, a vingança de Montezuma é que somos um país do sincretismo, sendo assim, não cabe apenas um Deus.
Travestidos com camisetas das Seleção Brasileira, muitos carregavam consigo bandeiras do EUA, alguns até de Israel ou pelo menos algum adereço, lembrando o país norte-americano. Nas entrevistas, as mesmas falas de que era importante nos tornamos aliados dos americanos, usar o modelo deles e que são o grande exemplo de civilização. Deus estava ali, na representação de tudo aquilo que os EUA tem como maior, perfeito e absoluto. Diante disso, a rendição completa e o apoio subalterno irrestrito.

A massa também estava convicta sobre temas como, a reforma da previdência e os cortes na educação, formas de ajudar o mercado a se reestruturar, salvando a economia e, com isso, ajudar os empresários a nos ajudar. O mercado é um Deus poderoso, onde o inimigo é o Estado, que atrapalha seu pleno desenvolvimento.

Aliás, toda religião tem seus demônios e eles foram evocados com o nome de comunismo. Mas, o demônio vem disfarçado com o discurso social de proteção à saúde, educação, ao meio ambiente, em defesa das minorias, travestido de discurso feminista e anti-racista. Então, tem que ser combatido como um mal que ronda as "pessoas de bem" em suas boas intensões.

Em um caminhão de som, uma faixa enorme de um Brasil conservador. Do alto do caminhão, o dono de uma casa de prostituição faz um discurso em nome do governo, da moral e contra a corrupção. Atentos os fiéis escutam. Deus está nos valores da família e na ordem moral.

E numa nação que tem Deus no coração, não precisamos de homens no comando, então, fecha o congresso conforme o pedido de muitos presentes em várias manifestações.

Se Jair Bolsonaro acreditou que, as manifestações orquestradas pelos empresários (os donos da Riachuelo e da Havan estão entre os financiadores) e a elite neopetencostal foram manifestações em defesa de sua pessoa, engana-se.

Jair Bolsonaro não tem virtudes para ser presidente e até seus eleitores sabem, mas foi escolhido por Deus para governar esse país. O "mito" é uma mistura de instrumento divino para causa maiores e mais importantes, por isso, não é preciso que ele fale, que frequente debates, nem que tenha inteligência.

No final da manifestação, na Avenida Paulista, os fiéis rezam o Pai Nosso, cantam o hino nacional e logo em seguida batem em retirada. O culto foi um sucesso.

O presidente é apenas a personificação dos desejos mais secretos de todos seus eleitores, que em seu discurso homofóbico, violento, racista, individualizante e ignorante, representa a massa de seus eleitores em suas vontades.

De onde emanou essa massa e esse poder?

Parte desse poder parte da capacidade de convencimento de grupos empresariais e seus gurus em disseminar ideias, onde a massa explorada compra muito bem o discurso dos que a comandam. De outro lado, da elite neopentecostal que se infiltrou de forma eficiente em todos os núcleos da sociedade, desde dos templos faraônicos que atraem os mais pobres, suas células gourmet hipster carismáticas que atraem jovens de todas as classes e seus núcleos coaching de empresários.

E por que Deus é tem importantes para os bolsonaristas, a ponto de bradarem aos cantos cantos que o seu mito é um enviado de Deus? Porque em nome de Deus se pode tudo!!!

Deus, nesse cenário, é o cheque em branco para que todos justifiquem aquilo que têm de pior.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

TAMBÉM MORRE QUEM ATIRA

     Porte de armas: quando as questões são mais importantes que as respostas


Sempre que uma lei, decreto ou medida do governo é implanta,  o debate público se faz importante para que todas as partes envolvidas possam ter uma representatividade nas decisões de um país, afinal, é necessário que todos pensem nos impactos que essas medidas terão a curto, médio e longo prazo.

Um dos erros comuns é achar que aquilo que é bom para o vizinho, consequentemente será bom para nós, ou seja, o que funciona lá, funcionaria também aqui. Errado!!!

Cada Estado possui sua estrutura, sua história, sua cultura, sua organização, por isso é fundamental pensar dentro de um contexto social específico para não incorrer ao erro de que "se algo funciona bem lá, aqui também vai funcionar". Nem sempre, caros leitores.

A PERGUNTAS SÃO MAIS IMPORTANTES


Dentro dessa questão, as perguntas são mais importantes do que as respostas, pois todo debate sobre qualquer tema tem em si o calor das emoções, onde cada grupo vai defender seu ponto de vista a partir de interesses que podem ser financeiros a emocionais.


Abaixo, irei abordar alguns tópicos importante em torno do decreto assinado pelo presidente Jair Messias Bolsonaro, que autoriza o porte e a posse de armas no Brasil.


PORQUE NÃO UMA CONSULTA PÚBLICA?

Uma pesquisa feita no mês de dezembro (2018),  pelo Instituto Datafolha, mostrou que 61% dos brasileiros consideram que a posse de armas é deve ser proibida, por representar ameaça à vida de outras pessoas.

Essa pesquisa é indicativa que a sociedade está dividida, então, nesse cenário o correto seria uma discussão mais ampla sobre a questão com direito a uma consulta pública, que pudesse dar à população o poder de opinar e até mesmo decidir sobre o tema.

Se de uma lado tem gente preocupada com essas medidas tomadas pelo governo, do outro lado, tem gente muito feliz com tudo isso, exemplo são os investidores da Taurus Armas, maior  fabricante de armas do país, que tem visto suas ações dispararem, apresentando saldos positivos, já de olho no mercado que irá se abrir com o decreto assinado.

ELES TÊM REPRESENTANTES

Aliás, não é novidade que congresso tem seus grupos formados e cada grupo representa interesses de grupos financeiros, a exemplo da famosa bancada da bala financiada pela própria Taurus Armas. 

Cerca de 70% dos candidatos a deputados federais receberam doações da indústria de armas, conseguindo se eleger para a Câmara dos Deputados. De 30 nomes que receberam doações, um total 21 saíram vitoriosos, e o total de doações foi em torno de 1,73 milhões. 

O que isso tudo nos diz?

Simples, que a urgência em aprovar tal decreto é patrocinada por setores de interesses que, diferente de nós pobres mortais, são bem representados no congresso. E como não existe almoço grátis, o investimento da Taurus  nos nossos deputados é para que isso gere um retorno prático em seguida.

Diante disso, já que há um conflito de opiniões, porque então o nosso presidente não abre o debate e faz uma consulta popular? 

QUE VIOLÊNCIA É ESSA QUE ESTAMOS COMBATENDO?

Outro ponto importante que precede o tema é a própria discussão sobre aquilo que chamamos de VIOLÊNCIA.

Isso mesmo queridxs!!!

O imaginário social tem como violência uma eterna luta maniqueísta, numa espécie ilusória da luta do bem contra o mal, onde a violência é tida como a do bandido malvado, que entra na casa do cidadão de bem, causando-lhe prejuízo. Nesse sentido, o cidadão de bem estaria ameaçados por bandidos que entram em suas casas, roubam seus pertences, botam em risco sua família e sua própria vida.

Sendo assim, o porte de arma seria uma defesa do cidadão de bem, que atestaria isso legalmente por meio de documentos e exames psicológicos, tendo o acesso às armas.

Primeiro ponto, não existe a construção ilusória do cidadão de bem!!! 





Outro ponto importante é que, no discurso do presidente, não são apresentados números da violência, que tipo de violência realmente mata, quem mata e por quê mata.



Simplesmente é apresentado um cenário de terror (e isso tem sua razão), para em seguida ser mostrada a solução mágica: as armas!


Temos que pensar que a violência é ampla e como fenômeno social, se apresenta das diversas formas. A sociedade brasileira é violenta, isso é fato. E essa violência está no ambiente doméstico, nos locais de trabalho, no trânsito, nas escolas, nos espaços públicos, enfim, a violência no Brasil é estrutural e está introjetada na nossa cultural, banalizando-se e, muitas vezes, naturalizando-se ao nosso cotidiano. 

Fazer e debater sobre a violência é fundamental, pois segundo a Atlas da Violência de 2018, cerca de 533 mil pessoas perderam a vida de forma violenta na última década aqui no Brasil.

Se consideramos que as principais vítimas são jovens, entre 15 e 29 anos, das regiões mais pobres do Brasil, temos um perfil de violência que muitas vezes não condiz com a realidade de determinados grupos sociais.

Além disso, não podemos esquecer da violência que mata mulheres todos dos dias, fazendo do Brasil campeão no número de feminicídios e daquela que atinge homossexuais, o que novamente nos coloca num ranking negativo. 

Sim, a violência tem nome, endereço e CPF, mora do nosso lado e convive com a gente. E na maior parte dos casos, é uma violência onde os atores sociais possuem algum laço de relação (parentes, amigos, cônjuges, namorados etc). Ela também afeta um grupo determinado, onde suas causas e efeitos varia de estado para estado e que com políticas públicas efetivas de segurança e prevenção poderiam diminuir.

QUANDO MAIS E MAIS É MENOS


Nesse cenário, onde muitos assassinatos ocorrem por armas de fogo, num país onde a população não têm acesso a arma de fogo, injetar mais armas de fogo resolve a questão?

NÃO!!!!

Se temos muitas armas de fogo circulando na sociedade, onde está a lógica de introjetar mais daquilo que nos causa tanto prejuízo?

A primeira medida a ser tomada nesse cenário seria o combate ao contrabando das armas de fogo ilegais no país, e isso significa prender aqueles que financiam tudo isso que é: o próprio Estado.

Isso mesmo, parte das armas de fogo que param na mão de bandidos, traficantes e toda a sorte de pessoas, são provenientes da facilidade que essas pessoas tem em acessar essas armas. E o crime organizado só se organizada com a ajuda do próprio Estado, não atoa, os envolvidos nesses contrabando são pessoas com influencia em setores do Estado. Veja os exemplos abaixo:


* Coronel do Exército preso em flagrante por vender 166 armas a clube ...

* Policial civil é preso por tráfico de armas, em Goiânia - Cidades - R7 ...

* Militares do Exército são presos acusados de tráfico de armas ...

* Polícia confirma que homem preso com 19 fuzis no Rio é militar do ...




Enfim, esses são alguns exemplos para ilustrar a questão de que, é necessário interromper as vias de contrabando de armas ilegais, antes de liberar mais armas.

QUEM NÃO QUISER NÃO COMPRA



Essa é outra falácia no caso da liberação de armas, por uma série de motivos.

Primeiro, a liberação virá de toda uma propagando maciça do consumo de armas, que como produto irá disputar lugar com a compra de carros, celulares caros e viagens para Miami. Afinal, o que a classe média não quer é ficar para trás e a Taurus não iria investir milhões na compra de deputados para não atingir em cheio a cabeça do consumidor.

Segundo, documentos no caso de armas de fogo não comprovam nada, pois num país onde o feminícidio é uma realidade, qualquer briga de casal em ambiente doméstico torna-se um risco. Da mesma forma, brigas entre vizinhos, sem falar nos acidentes de trânsito, onde a preocupação em saber se o outro está armado ou não será uma realidade. Na, dúvida, não seria bom levar sua arma no porta-luvas? E se o acidente for de madrugada, você com sua esposa e seus filhos, não é bom descer com a arma na cintura? Vai que o outro esteja armado.

E terrível isso, mas a galera do Porta do Fundos acertou em cheio na ironia quando assunto é o uso das armas legalizadas:




TRAGÉDIAS ANUNCIADAS



Sou professor há 14 anos, atuando em escolas públicas, particulares, já trabalhei em abrigos e com população vulnerável. A minha experiência pessoal e profissional não reflete uma realidade social total, apenas, a realidade com a qual eu convivo nesses 14 anos.

Sei que muitos pais não têm o devido controle da ação de seus filhos e posso dizer que não é por negligência não, pois jovens são astutos, espertos, ligeiros. E sempre nas reuniões eu repito o mantra: "pais, estudem sobre juventude, leiam, observem". Pois todo adolescente já enganou ou mentiu para os pais, inclusive você e eu.

A liberação do porte de armas trará mais riscos para dentro de ambientes vulneráveis como o ambiente escolar, onde por problemas variados jovens podem levar essas armas para dentro da sala de aula.

E quando tiver aquele clássico bonito do futebol nacional, juntando torcidas rivais? Será que o cidadão de bem, fanático por futebol, que fica agressivo quando o assunto é o parmera ou curintcha vai deixar a arma em casa? Mistério!

E no churrasco da família, quando o macho inseguro, porém cidadão de bem tiver com síndrome de Bentinho e, desconfiado que sua esposa está com um ilusório caso com o cunhado, será que a arma fica em casa?

E quando a bandidagem do bairro souber que você adquiriu aquela arma novinha em folha, que tá guardada no cofre de casa, conforme determina a lei. Será que a arma fica em casa?

E quando algum membro da família, no auge da depressão, tiver sobre efeitos daqueles depressivos fortíssimos e de umas doses de whisky  importado, pra onde vai a bala da tua arma legalizada?

quarta-feira, 1 de maio de 2019

INSTRUCCIÓN DE CÓMO MIRAR HACIA EL TECHO


El arte de mirar al techo es la preferida de filósofos, poetas, procrastinadores y depresivos en general. Consiste en dirigir su mirada, libre de todo y cualquier sentimiento, para el techo por largos minutos.
  Es necesario estar atento a la postura y tener concentración máxima, por eso, indico un ambiente tranquilo, silencioso, con buena iluminación. De preferencia, una habitación, con una cama debidamente ordenada. El sonido de su preferencia, por ejemplo, me gusta escuchar Billie Holyday, Radiohead, Björk, pero no tenga miedo, sea ecléctico. Con el ambiente preparado, si juega en la cama, no es necesario un traje especial, puede ser con la ropa que esté usando o simplemente, quede desnudo. Mantenga la distancia de los brazos al cuerpo y piernas moderadamente abiertas. Esto ayuda a sentir cada parte de su cuerpo independientemente. Mantenga el cuerpo recto y la cabeza firme, mirando hacia arriba, ojos fijos al techo. No pienses en nada. Sólo mire, sienta, viva el momento. No se mueva o haga proyecciones sobre la vida o la muerte. Ojos fijos al techo.
 Para revertir la operación, mueva lentamente el cuerpo buscando los pies en el suelo y, poco a poco, volver al estado normal. No levante de la cama de una vez, quédese unos minutos mirando la pared y reflexionando sobre el estado anterior - mirar hacia el techo.
 Pasado uno o dos minutos, vuelva la vida cotidiana.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

O LEVIATÃ DESGOVERNADO


O trem descarrilhou, estamos todos perdidos, confusos e desorientados, essa é a verdade. Nossa democracia recente e frágil está enfrentando o seu pior momento, depois da redemocratização. Mas, não é só aqui não, o mundo todo está assim e a grande questão é: para onde vai tudo isso vai nos levar?

Aqui no Brasil, um governo que tem como marca principal a ignorância, simbolo máximo da inserção do homem mediano na política. Por isso mesmo, todo o debate político em âmbito público transformou-se numa grande conversa de boteco onipresente. As fofocas, as intrigas, os detalhes mais insignificantes tomam a vez no debate, deixando de lado uma análise profunda e estrutural de questões urgentes.

A criação de um inimigo interno, até o momento, foi bem sucedida. Com medo novamente de uma ameaça comunista, de uma dominação via marxismo cultural, as pessoas passaram a odiar o Estado, a coisa pública e tudo aquilo que remete ao social, inclusive esfacelando a noção de coletividade.
O cada um por si é a palavra de ordem, tendo como esperança única, o mercado.

E o mercado não gosta do Estado, pelo menos aquele que distribui renda, que promove políticas públicas, que assegura direitos, que zela pelo patrimônio público. O mercado financeiro é ciumento, quer o Estado só pra ele, ajudando em leis de incentivo, privatizando via risco zero para empresas, socorrendo nas horas de necessidade com o dinheiro do povo, propiciando mamatas via esquemas de corrupção, afinal, onde tem dinheiro sujo tem uma empresa amiga por perto.

No meio dessa confusão toda na fogueira das vaidades, a sociedade civil está perdida, se digladiando. Os movimentos sociais estão enfraquecidos, sendo expostos aos ataques mais desonestos. A esquizofrenia social atuante tomou conta do discurso do senso comum, perdemos a noção de tempo e espaço e os conceitos são apropriados sem nenhuma preocupação de real de entendimento, são apropriados livremente e com a tradução que o cidadão mediano impõe.

A palavra de ordem é resistência, ocupação dos espaços, criação de redes de solidariedade e, principalmente, uma humildade em trazer para a sanidade absoluta o cidadão mediano esquizofrênico que até agora não se mostrou sensível ao próprio caminho perigoso que nossa democracia e nossos direitos vem tomando.

Mas, por enquanto, a locomotiva do Estado e da política está cada vez mais desgovernada e distante de todos nós, e isso não é nada bom. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O DESEJO DE MATAR

Charles Bronson, ícone machão dos anos 70
Dois assassinatos trágicos e simbólicos ocorreram no mês de Fevereiro. De um lado, o assassinato do jovem Pedro Gonzaga, asfixiado por um segurança de hipermercado, quando já estava rendido e não oferecia nenhuma resistência. Do outro lado, um taxista é friamente assassinado, em plena luz do dia, por causa de uma briga de trânsito, em João Pessoa, na Paraíba.

O que marca simbolicamente nos dois casos é a frieza espantosa dos assassinos, que se mostram tomados por uma quase missão hercúlea, a de matar, custe o que custar.

O segurança, que matou Pedro Gonzaga, mostrou-se totalmente alheio aos pedidos do público ao redor, que alertaram sobre a condição do jovem que se encontrava desmaiado, roxo e que corria risco de vida na condição em que estava. Os demais seguranças, nada fizeram para controlar a fúria desmedida de Davi Ricardo Moreira Amâncio, o colega de trabalho descontrolado.

Já no episódio em João Pessoa, o Gustavo Teixeira desce do carro com uma tranquilidade espantosa e após três disparos, sai mais tranquilo ainda, ruma a sua casa.

O que chama atenção nos dois casos é que ambos são eleitores de Jair Bolsonaro, que no perfil das redes sociais ostentavam fotos segurando armas, com emblemas de seu candidato e que pregavam um discurso de ordem e moral, típico do auto declamado "cidadão de bem".




O segurança, assassino de Pedro Gonzaga, era enfático na sua cartilha moral, dizia que seu lema era "salvar vidas". Porém, o mesmo já havia sido condenado por agressão a ex-companheira, inclusive, pela lei, não poderia esta na função de segurança pela condenação que havia recebido.


      O MACHÃO SALVADOR

Assim como um herói ou a caricatura de Charles Bronson, ambos enxergavam em si a personificação do cidadão de bem, do pai de família, dos protetores da ordem. E quem não se encaixava no perfil traçado por eles, simplesmente, pagariam com a vida. Numa espécie de eliminação dos impuros e do mal personificado.

Para o segurança do hipermercado, sua insignificância por desenvolver um trabalho subalterno era tão grande, que num primeiro momento não pensou duas vezes: "Agora me torno herói".

Mas o vilão em questão, não era os patrões exploradores, os políticos corruptos donos do poder, muito menos o dono da Vale, responsável pela morte de mais de 300 pessoas em Minas Gerais. Esses não, esses são patrões, pessoas importantes.

O inimigo a ser combatido é sempre o vulnerável, o que está próximo, aquele ao qual a vida não importa para a sociedade. Por isso, ele cometeu o crime sem culpa.

No caso do Gustavo Teixeira, assassino do taxista, o que a imagens mostram é uma pessoa sedenta em descarregar sua fúria contra alguém. E quem melhor que uma vítima indefesa, sentada num banco de uma carro, sem possibilidade de se defender?

Jair Bolsonaro inflou esses egos, mandou um recardo direto: "Defendam-se!"
Não a toa que sua campanha não apresentou nenhum plano de governo real, apenas a promessa de liberar a posse de armas para os "cidadãos de bem" e com isso a possibilidade de cada um se defender dos criminosos.

Em linhas gerais, a carta branca que o brasileiro precisa para justificar seu desejo de matar, a saber, o combate ao crime, o estabelecimento da ordem e dos bons costumes, a limpeza de toda impureza que há na sociedade brasileira.

O que não se coloca é quem estabelece o critério é quem está com a arma, são os mais fortes diante dos vulneráveis e que perante a sociedade gozam de boa reputação. Que reputação é essa? Branco, de preferência; hétero; casado; pai; e, empregado.

Esse é só o começo, infelizmente.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

MANUAL PRÁTICO DA INFELICIDADE

RESENHA DO LIVRO "MANUAL PRÁTICO DA INFELICIDADE", POR MARIANA LESNOK

Manual prático da infelicidade:
memórias de uma mente depressiva

Longe de qualquer estilo delimitado de obra literária, longe de qualquer busca por fãs de seus textos ou simplesmente rótulos, Manual Prático da Infelicidade pode ser definido basicamente como uma obra singular, original, que ao longo de sua extensão surpreende e captura a atenção dos leitores.

Em meio ao sarcasmo, muitas vezes à comédia, os textos escritos com muito realismo, além de causar muitas risadas, nos leva principalmente a enxergar como boas as coisas que consideraríamos como ruins.

Mais do que textos demasiadamente escritos sem qualquer intenção de trazer alívio aos males da vida, buscam paralelamente encorajar os leitores a aceitar o que nos é trazido pela vida, mas principalmente encorajar de que se entender necessário e útil, todos podemos e devemos reagir da forma que melhor achamos.

Entre relatos sobre a vida de Alexandre, podemos encontrar ainda textos, dicas, lições, e muitos “delírios” como ele mesmo intitulou.

Aos ideologicamente, religiosamente, politicamente e moralmente alienados, um lamento, não é aqui que você se encontrará.

Arthur Schopenhauer, mestre inspirador do escritor
Distante de qualquer adoração às divindades ou religiões, ironiza muitas vezes Deus e acaba destacando o Diabo como uma figura simpática, claramente demonstrando sua falta de empatia com esse tipo de segmento.

Com relação aos envolvidos e submersos na política, um aviso: Se é fã do Bolsonaro, lamento!

Já aos que baseiam suas vidas aos bons costumes e moral: isso aqui é uma verdadeira desordem e imoralidade. Não há regras e vocês são muito chatos!

Alexandre mais do que tentando demonstrar seu lado “ranzinza e depressivo”, conseguiu destacar-se como um ícone, sim, um ícone. Alguém que pertence à uma dimensão muito elevada de criatividade, clara inteligência e óbvio distanciamento a qualquer estereotipo.

Suas concepções, embora distantes do “comum”, conseguem nos levar ao seu objetivo principal, a reflexão.

Realidade transmitida ao papel.

Livro: Manual prático da infelicidade: memórias de uma mente depressiva
Autor: Alexandre Ramos
Editora: Multifoco

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