"Deus tem agora um sério concorrente" (Epitáfio para um sociólogo, José Paulo Paes)

PÁGINAS

quarta-feira, 14 de março de 2018

O OLHAR SOCIOLÓGICO A PARTIR DAS OBRAS DE ESCHER

DE ALUNO MEDIANO A UM GRANDE ARTISTA


Maurits Cornelis Escher (1898-1972, um artista que desafia o nosso olhar, abusa das formas geométricas e ainda serve de inspiração para inúmeros outros artistas, aparecendo em filmes e vídeos de bandas. Sua obra é um convite ao estranhamento da realidade, a observação detalhada e minuciosa, coisa que nossos olhos não estão acostumados.

Hand with reflecting sphere (1935)
Holandês, nascido em um família rica, foi um aluno mediano, sobretudo em matemática, mas era muito bom em desenho. Matriculou-se no curso de arquitetura, mas uma semana depois deixou o curso para dedicar-se às artes gráficas.

Em uma viagem a Espanha, encontrou o cenário perfeito para sua inspiração, onde teve contato com a arte geométrica muçulmana, com seus mosaicos e arabescos. Passou ainda pela Itália, Suíça, Bélgica, até retornar a Holanda onde passa o restante da vida. Essa influência cultural é significativa em seu trabalho.

Apesar de suas obras terem como bases formas geométricas muito bem calculadas, Escher sempre foi ruim nos estudos e na matemática. Mas isso não o impediu de ser um excelente artista.



ESCHER E O OLHAR SOCIOLÓGICO

Os trabalhos de Escher desafiam nosso olhar, primeiro pela perfeição das formas, onde em muitos trabalhos a impressão que temos é que foram feitas no computador. Depois, pela séries de elementos e detalhes que nos leva a ter um olhar muito bem apurado, a partir de uma observação sempre atenta. Tudo que é necessário para desenvolver o chamado olhar sociológico

Na obra abaixo Drawing hands (1948), ele cria uma imagem tridimensional, utilizando uma metalinguagem, onde o desenho se auto desenha. Isso, bem antes do surgimento dos computadores. 

Drawing hands (1948)

Parte de seu trabalho era em xilogravura, desenhos em relevou feito em blocos ou folhas de madeira. E litografia, processo que criava desenho partir de impressões feitas em pedra.

Abusando de paisagens sinistras, personagens estranhas, um universo sombrio, todo o trabalho do artista holandês nos instiga, nos provoca, ativando nosso olhar.

Waterfall (1961)

O trabalho acima (Waterfall, 1961) é um exemplo, onde ele brinca com o percurso da água, dando a impressão de que a mesma está subindo, mas ser repararmos bem, há um entrecruzamento, numa espécie de labirinto que nos provoca uma certa vertigem ao tentarmos acompanhar. 

Bond of union (1956)
Ele abusa dos sentidos e da percepção, nos faz refletir a partir de imagens que incomodam, ao mesmo tempo que atraem. O universo humano, a natureza, tudo se desconstrói para criar uma nova realidade. Escher nos tira do comum e faz pensar pensar. Não é por acaso que muita de suas obras aparecem em filmes, são referenciais em cenas clássicas e até mesmo faz participação em vídeos de bandas de rock, como no caso do clipe da música Otherside, do Red Hot Chilli Peppers.


UM ARTISTA INFLUENTE

Algumas de sua obras fazem ponta em filmes conhecidos, como em Donnie Darko (2000), onde a obra Eye (1946) aparece no quarto do personagem principal.

Donnie Darko (200)
Porém, no filme Uma noite no museu: o segredo da tumba (2015), os personagens do filme são transportados diretamente a obra Relatividade (1953), um de seus trabalhos mais conhecidos, que dentro do olhar sociológico nos mostra que a realidade é relativa, que pode ser vista a partir de várias perspectivas e sempre de um modo diferente.



Relativity (1953)


As famosas "escadas do Escher" aparecem também no filme A origem (2010), dirigido por Christopher Nolan, que tem como enredo a trama de ladrões de sonho que tentam plantar ideia na mentes das pessoas enquanto elas dormem. No filme do Harry Potter, há outra nítida influência das escadas que dão acesso aos quartos dos alunos de Hogwarts.
E, por último, os traços e as marcas do pintor holandês aparecem no vídeo da música Otherside, da banda Red Hot Chilli Peppers.




Para Peter Berger, é parte do trabalho do sociólogo ter essa curiosidade, esse espanto com a realidade, essa curiosidade diante da porta fechada, onde, do outro lado se escuta vozes. Ao mesmo tempo, a realidade nos apresenta muitos níveis de significados, que podem ser interpretados a partir de vários pontos de vistas. Algo, que o trabalho de Escher no estimula a todo momento. 

Da mesma forma, pegando o conceito de Wright Mills, Escher apresenta um olhar sociológico ao brincar com as formas, quando explora as paisagens ao máximo e nos deixa atentos a pequenas cenas do cotidiano que a partir de suas mãos assume uma complexidade.

Explore um pouco mais de sua obra a partir do link: http://www.mcescher.com/ e uma boa viagem!!!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

INCLASSIFICÁVEIS - ARNALDO ANTUNES E O POVO BRASILEIRO

Obra "Operários" de Tarsila do Amaral (1933)
Falar do povo brasileiro é tarefa árdua, inclusive para nós brasileiros, onde a diversidade que se estabelece nos mais diferentes níveis, nos dá a sensação de vivermos em um país sem uma unidade.

Essas diferenças são encontradas na geografia de um país continental, onde os climas do sul e norte em nada se assemelham. A encontramos nos hábitos alimentares, no sotaque, no comportamento, nas regras e no costumes em geral.

Dizer que o brasileiro é um povo alegre e feliz  não satisfaz uma dúvida que é muito mais ampla: Afinal, o que é ou quem é o brasileiro?

Nas escolas, a fórmula mais colocada é que o brasileiro se dá pela mistura do índio, com o branco e o negro. Mas, mesmo essa ligeira explicação esbarra na descoberta que não há uma unidade desses elementos, uma vez que ao falar do índio, por exemplo, descartamos a miríade de agrupamentos indígenas, cada um deles apresentando suas características específicas. Isso ocorre como negro, vindo das várias regiões do continente africano. E os europeus, que não se limitavam apenas aos portugueses.

Um músico que conseguiu sintetizar essas misturas, com uma letra bem inventiva, criativa e muito bem elaborada, foi Arnaldo Antunes, que em 1996 lançou o álbum "O silêncio", nele a faixa Inclassificáveis se destaca inclusive pela excelente parceira com o músico Chico Science.


Em tom provocativo, Arnaldo inicia questionando a simploriedade em enxergar a apenas a tríade já mencionada acima, do índio, branco e do negro:
que preto, que branco, que índio o quê?
que branco, que índio, que preto o quê?

que índio, que preto, que branco o quê?

Para logo em seguida, iniciar um trava línguas onde as misturas ocorrem nas expressões, mostrando que o brasileiro é feito de cafuzos, mamelucos, mulatos, caboclos, árabes, nisseis, yorubás, tupinambás, italianos, orientais, ciganos, americanos...


aqui somos mestiços mulatos
cafuzos pardos mamelucos sararás

crilouros guaranisseis e judárabes


orientupis orientupis
ameriquítalos luso nipo caboclos
orientupis orientupis
iberibárbaros indo ciganagôs


Junto com Chico Science conclama que é impossível construir uma diversidade sozinho, em outras palavras "não há sol a sós". Somos isso de fato, inclassificáveis.


O trabalho de Arnaldo Antunes vai de encontro a um dos livros mais importantes sobre o brasileiro, que é a obra "O povo brasileiro" (1995), do antropólogo Darcy Ribeiro. Livro que irá abordará a formação a partir das suas matrizes fundadoras (tupi lusa e afro), da miscigenação que se inicia logo após o processo de dominação pelos portugueses e do encontro de vários povos que aqui chegam através do movimento de imigração.




Darcy Ribeiro, também fará uso de neologismo como "fazimento", "ninguendade", além da denúncia a um processo que, ao contrário do que se imagina, ocorre através de muita violência, como no caso da dizimação de milhões de índios, o cunhadismo que dava abertura a processo de violência e abuso contra mulheres índias, a escravidão, entre outros processos. 

Se nossa riqueza está na diversidade, por outro lado, ela não convive de maneira tranquila e sem problemas. Há ainda uma dificuldade de autoaceitação, assim como aceitação da nossa própria cultura, da diferenças que são frutos dessa diversidade.

Por hora, a música nos ajuda muito a pelos menos perceber o quão ricos somos e ainda não aproveitamos de fato. 

Viva Arnaldo Antunes! Viva Chico Science! Viva Darcy Ribeiro!

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

NUNCA FOI SOBRE POLÍTICA



A massa não gosta de política, não apenas pela falta de entendimento, mas pelo desinteresse. Todos estão preocupados com coisas básicas envolvendo a própria sobrevivência.
Então, por que tanta gente falando de política?
Eles não falam de política, apenas inserem a política no imaginário social costumeiro, da mesma forma quando tratam do futebol, da novela, da vida alheia. Elas querem apenas falar para demonstrar um suposto interesse, transparecer preocupação e aparentar uma intelectualidade que não existe.
Nesse contexto inserem todos elementos folclóricos do senso comum. A política assume as características de uma novela global, com mocinhos e mocinhas, bandidos, heróis, gente do mau e gente do bem, salvadores da nação e os que querem destruir e dominar. Como numa espécie de conto de fadas adulto.
A massa quer estar presente para condenar, absolver, quer mostrar que entende (mesmo quando não entende), quer barulho, quer sangue na arena, quer cantar aliviada, festejar a condenação, mesmo que ela não entenda nada do que está acontecendo (mais perdida que sega em tiroteio).


A Massa
Pitty
  
O que se passa com a massa
Deglutida antes de assar
A massa já mastigada
Sem ter tido tempo de descansar

Que iguaria sem par
A massa inerte no pote
Quitute igual não há
A massa entregue à própria sorte

Receita incompleta na massa
Não faz o bolo crescer
Se a massa for triturada
Que consistência vai ter

Que massa mais desnutrida
Carece de adubo ou fermento
Quem dera a massa fosse
Manjar do mais suculento

A massa é feita pra saciar
A fome dos que a sabem modelar
Regurgitada pra lá e pra cá
Bota fermento nessa massa, deixa fermentar

Que a regra de ouro se faça
Massa sem adubo não há

O estômago revira com a massa vazia
Não passa de uma ração
Não querem massa indigesta
Não querem perder a razão

Que iguaria sem par
A massa inerte no pote
Quitute igual não há
A massa entregue à própria sorte

A massa é feita pra saciar
A fome dos que a sabem modelar
Regurgitado pra lá e pra cá
Bota fermento nessa massa, deixa fermentar

Que a regra de ouro se faça
Massa sem adubo não há

A massa é feita pra saciar
A fome dos que a sabem modelar
Regurgitada pra lá e pra cá
Bota fermento nessa massa, deixa fermentar
Regurgitada pra lá e pra cá
Bota fermento nessa massa, deixa fermentar

Que a regra de ouro se faça
Que a regra de ouro se faça

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

A ESTÉTICA DO ABSURDO EM RICK & MORTY


Um velho de cabelos grisalhos e bagunçados, com um jaleco branco e totalmente bêbado entra no quarto de um adolescente, levando-o pelos pés para sua nave espacial. O diálogo que ocorre no espaço é surreal, envolvendo uma possível destruição da Terra, o rapto de uma adolescente para procriação e a possibilidade dela servir como objeto sexual dos dois únicos sobreviventes.


O primeiro capítulo do desenho Rick & Morty entrega logo de cara a proposta da animação onde, os dois personagens centrais fazem uma clara referência ao Dr. Emmett Brown e Marty McFly, da trilogia De volta para o futuro (1985). Aliás, Rick & Morty é um festival de referências por todos os lados, Jurassic Park, Planeta dos macacos, O Homem de Ferro, Footloose, Titanic, Uma noite de crime, A origem, A ilha do medo, um pouco de Os Simpsons e muita coisa de Quentin Tarantino. Este último é influência determinante nas incontáveis cenas de violência explicita, como no episódio 9 da segunda temporada, onde na noite do expurgo Rick & Morty tem que se defender dos habitantes de um planeta alienígena. Nesse episódio Morty externaliza toda cólera contida e numa armadura de Homem de Ferro, se transforma num assassino frio. Detalhe para a cena onde ele empurra um senhor escada abaixo.

O recurso da animação é sem dúvida um fator essencial, que permite ao seus criadores Justin Roiland e Dan Harmon, abusar de todas as possibilidades. Mundos inimagináveis, realidades paralelas, transformações absurdas, a profanação de imagens e personagens, a acentuação das cores que em vários momentos sugere situações sombria (Tim Burton utiliza bem esses recursos), e principalmente, a possibilidade do politicamente incorreto num mundo da fantasia dos desenhos animados. 

Mas, a o ponto alto da série animada Rick & Morty está nas referências filosóficas presente a todo momento não como proposta para reflexões profundas, mas com uma intenção clara de confundir o telespectador que, em sua maioria, apesar de rir das situações propostas, com certeza não engoliria fácil essas mesmas questões no dia a dia. 

O ATEÍSMO E NIILISMO
"Ninguém existe de propósito, ninguém pertence a nenhum lugar, todos vão morrer." 
Morty

A sentença acima, proferida pelo garoto Morty a sua irmã Summer define bem a característica existencialista do personagem onde, a todo o momento coloca dúvida sobre a existência e o próprio sentido da vida. Inseguro e com poucas habilidades, Morty vê em seu avô Rick a possibilidade de uma vida menos tediosa e distante do fracasso que é a vida de seu pai Jerry. Mas é com Rick que esse questionamento a Deus é evidente, como no episódio Fratura temporal, onde para escapar da morte Rick evoca a divindade e, ao escapar por pura sorte de um mecanismo que passa a funcionar, o personagem não exita em dizer: "Isso, vai se fuder Deus...".

É nítida a influência nietzschiana no personagem, que com um misto de niilismo demonstra uma atitude totalmente cética em relação ao ser humano, aos sentimentos e a própria vida. Isso entrega ao personagem uma característica de auto destruição. Para Rick o amanhã não importa muito, por isso está sempre alcoolizado, se entregando aos prazeres sem nenhum pudor e buscando manter-se distantes de relações e vínculos afetivos. 

Para Rick o "amor é apenas uma reação química", "tradições são idiotas", "casamentos são funerais com bolos", "escola não é um lugar para pessoas inteligentes". Num ritmo alucinante o velho cientista dispara frases como balas, disposto a atingir todos, sem nenhum preocupação. Rick é em alguns momentos a personificação do super homem de Nietzsche, que cria sua própria moral, inclusive numa filosofia expressa ao seu neto, logo no episódio piloto, onde diz:
“Eu sei que essa situação pode ser intimidadora. Você olha ao redor e é tudo assustador e diferente, mas sabe… encará-las, avançar contra elas como um touro - é assim que crescemos como pessoas.”



QUESTÕES FREUDIANAS
As questões sexuais são outro ponto interessante na animação. Todos personagens, exceto Rick, apresentam dificuldades em lidar com determinada situações e a repressão aos instintos fazem dos pais de Morty, Jerry e Beth, personagens mal resolvidos e com um casamento em crise. O próprio filho Rick apresenta esse problema, ao apresentar uma frustração por não ter a atenção da colega de escola Jéssica. 

Em muitos pontos os personagens se envolvem e fantasiam situações onde a liberação dos instintos sexuais os levam a realização, exemplo disso é a relação que o Jerry tem Garry Sonolento, no episódio Parasitas invasores.

A satisfação dos personagens se expressa também pela várias cenas de violência, nelas os personagens liberam todos os impulsos reprimidos como uma válvula de escape. A personalidade de cada um é dúbia e inconstante, adequando-se aos instintos de sobrevivência e justamente quando tentam apresentar-se em situações de normalidade a infelicidade e as inquietações se apresentam. São todos reprimidos de algumas forma.

O QUESTIONAMENTO DA EXISTÊNCIA
Por fim, o recurso das realidades paralelas, das várias versões em planetas diferentes, demonstram que não há sentido na existência, ela é aquilo que queremos ou o que fazemos dela. Assim, Rick & Morty faz um convite para a uma aventura ao desconhecido, rumo a um mundo de percepções e de uma nova moral, sem ressentimentos ou arrependimentos. Tudo no mundo é vago, sem exatidão. Por isso mesmo, sem linha de conduta correta ou errada, apenas existimos por existir. A vida é no planeta é um absurdo que não precisa ser entendido.


Mas, um alerta, existe algo íntimo no personagem Rick não revelado ainda (não assisti a 3ª temporada), que trai sua própria atitude niilista e porra louca. Em vários momentos seu silêncio denúncia um medo, daí, um alerta aos niilista, nitzschianos  de plantão. O que se fala não se prática, o próprio Nietzsche não era nitzschiano, sua filosofia estava muito mais nos planos das ideias do que da prática em si. Rick em diversos momentos se mostra sentimental, preocupado e até mesmo crente, frente a algumas situações.

Isso nos mostra que  apesar da euforia causada pela série Rick & Morty, a realidade não é desenho e não podemos fantasiar a existência. Infelizmente. 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

PABLLO VITTAR, ANITTA E A INDÚSTRIA CULTURAL

Na sequência Pabllo Vittar, Max Horkheimer e Anitta
Abaixo a imagem das sopas Campbell's de Andy Warhol

No final de 2017 todas as atenções voltaram-se a duas artistas que rederam muitos comentários nas redes sociais, Pabllo Vittar e Anitta

A primeira por ser homossexual travestido (o mesmo não se considera transgênero e nem transexual), com um agudo potente que chama atenção, tanto para fãs como para os críticos ferrenhos. Já a consagrada Anitta chamou a atenção pelo seu último videoclipe, onde se apropria de elementos e da estética dos morros e favelas do Rio de Janeiro, para a composição do seu mais novo hit Vai malandra. A questão, no caso de Anitta, é o vídeo todo erotizado, com bundas em excesso e corpos desnudos.

Distante de uma análise moral o objetivo desse texto é analisar o quanto essas duas artistas fazem parte do que podemos chamar de INDÚSTRIA CULTURAL e, nesse contexto, são produtos que refletem toda essa indústria.

A enxurrada de críticas que ambas as artistas recebem acabam não se fundamentando, boa parte por girar em torno do mais do mesmo do "isso não é cultural", "isso não é música", "tanta artista bom por aí...", "não tem mais artista bom como antes". Enfim, toda aquela ladainha que não permite que as pessoas percebam que, mesmo seu artista descolado, erudito e refinado é tão parte dessa indústria quanto os exemplos acima.


EMPODERAMENTO E DIVERSIDADE

Anitta eo  discurso feminista incorporado

Apesar de ser tema da moda, o empoderamento das duas artistas é evidente. De um lado, um homossexual todo transformado, assumindo sua condição em canais de TV, shows e na internet. Com a voz e o corpo que revela sua condição, onde a ação revela mais que o discurso militante. Pabllo Vittar se mostra e enfrenta o mundo, samba na cara de todos, sem medo algum. É diva.

Ah! Mas a voz é irritante!!!
Sim, mas quem disse que precisa cantar bem??? 


Um artista é um produto e antes de vender sua música ele, dentro do grande circo da indústria fonográfica, vende uma ideia, vende roupa, vende estilo, vende o discurso, a marca da camiseta, os acessórios, o cabelo etc. E, por último, a música, que nada mais é que a trilha sonora para o produto em exposição.

Mas letras não dizem nada, não têm conteúdo??? 


E quem disse que é pra ter!?


Conteúdos tem em livros de história e filosofia, a música é antes de tudo entretenimento puro. É a junção da batida e de letras que apresentam uma musicalidade, que tem como único objetivo entreter as massas.

Nesse sentido, Pabllo Vittar é uma artista autêntica e completa, cumpre os requisitos.

Anitta é a mulher mais bem sucedida do momento. Com grande sucesso aqui, e relativo reconhecimento no exterior, consegue transformar cada lançamento de uma música num evento. Seu show segue toda a estética do que um dia já fez Madonna e, tal como a estrela norte americana, também causa polêmica por sua dose de erotismo latente.

Anitta é a protagonista de si mesmo e com isso coloca em prática o discurso do "meu corpo, minhas regras". Ela faz o que bem quiser, pois é dona de próprio nariz. 


Com seu funk pasteurizado, palatável para as massas e sobretudo acessível aos lares da sagrada família brasileira, Anitta é outro produto de sucesso. E não é de forma pejorativa que intitulo assim.


A INDÚSTRIA CULTURAL 

O termo indústria cultural foi criado em 1947, por Theodor Adorno e Max Horkheimer  (Escola de Frankfurt).

O surgimento do processo ocorre a partir do século XVIII, onde os principais fatores foram a multiplicação dos jornais na Europa, a urbanização, a industrialização, criação e ampliação do mercado consumidor.


A partir disso, surge o ciclo de produção em massa para o consumo em massa.

Nas cidades o lazer e a arte se transformam em serviços oferecidos por por profissionais, a exemplo de circos, companhias de espetáculo, de tetro e dança

Umas das características da sociedade em massa está no surgimento de multidões padronizadas e homogêneas.

Na indústria cultural tudo é mercadoria produzida exclusivamente para o consumo em larga escala, em massa. De sabão em pó até o artista do momento.

O sucesso do verão não alcança esse patamar do nada, simplesmente porque as pessoas escutam e de boca em boca passa a ser sucesso. Um artista, antes mesmo da sua fama, já é pensado para ser sucesso, vender milhões. Então, por trás dele, antes de subir ao palco ou estrear como artistas, inúmeros profissionais se dedicaram a criar e compor o sucesso do momento. 

Elvis Presley, o rock como grande exemplo de produto gerado pela Indústria Cultural
O rock é exemplo bem sucedido de estilo que foi criado pela indústria cultural para atender ao gosto da juventude rebelde em meados dos anos 50, então, a partir disso, uma enxurrada de outros produtos aparecem, de bottons até jaquetas, passando pela literatura e a arte em geral, tudo isso acompanhando o artista do momento que foi criado para exclusivamente para isso.

No geral, você pode ter críticas quanto ao estilo de música, mas cada artista apresentado não foge a regra do que vemos aos montes, como produtos de uma mesma indústria para puro deleite das massas.
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