"Deus tem agora um sério concorrente" (Epitáfio para um sociólogo, José Paulo Paes)

PÁGINAS

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

CIÊNCIAS SOCIAIS - ESTRÉIA NO CANAL DUVIDANDO

Hoje foi minha estreia no canal DUVIDANDO, um canal voltado para o ensino de uma maneira diferente. O DUVIDANDO tem toda uma preocupação com um ensino interdisciplinar e, principalmente, acessível para os estudantes e para o público surdo em geral, por isso, todas as aulas tem um intérprete de libra.
Ah! Isso muito antes da questão ser tema de redação do ENEM.
Nesse vídeo falei de forma rápida sobre o que são as Ciências Sociais e as três disciplinas principais, que são a Sociologia, Antropologia e as Ciências Políticas.
A ideia é criar  uma aproximação do estudante com os temas, em breve terão vídeo  aulas completas com temas mais específicos.
Acompanhem o canal se inscrevendo e curtindo os vídeos!



sábado, 28 de outubro de 2017

QUEM É ESSE TAL DE DIREITOS HUMANOS?


Na quinta-feira, dia 26, a Justiça Federal suspendeu o item do edital do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que prevê nota zero para quem desrespeitar os direitos humanos. O pedido foi realizado pela Associação Escola Sem Partido, argumentando que a regra não possui critérios objetivos e que tem "caráter de policiamento ideológico".

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), responsável pela aplicação do ENEM, informou que não recebeu notificação, mas assim que receber irá recorrer.

A decisão foi comemoração pela Associação Escola Sem Partido, reafirmando que a regra proposta pelo INEP fere a liberdade de expressão.

Não vou entrar na questão da Associação Escola Sem Partido, que tem muito de partidarismo e, principalmente, não é e nunca foi neutra em sua constituição. A associação reflete todo um projeto político-econômico que diversos grupos estão implantando no Brasil e que reflete todo um projeto neoliberal, com todo o tempero do que há de pior na história e formação do nosso país, a saber, a estrutura escravocrata, patriarcal, elitista, excludente e violenta para com os mais pobres. Proposta "modernas" lideradas pelo que há de mais arcaico em nosso país.

O que tem que ser debatido aqui é, entre outras coisas, o prejuízo para a educação e a sociedade como um todo, uma vez que esse vale tudo pelo poder abre espaço para a implantação da barbárie completa.

A proposta no INEP nunca foi restringir a liberdade de expressão, mas de colocar aos estudantes o desafio de ler e pensar por meio de argumentos sólidos, consistentes, a partir de uma racionalidade que demonstre o real conhecimento sobre os Direitos Humanos.

A primeira barreira a se quebrar, nesse sentido, consiste na capacidade de entender que há no Brasil a ideia de que os Direitos Humanos formam uma instituição, um partido ou até mesmo uma pessoa. É muito comum as pessoas utilizarem o termo: "Onde está os direitos humanos?" , "cadê os direitos humanos?" ou "por que os direitos humanos não vai lá na casa do policial?".  As interrogações denunciam, o conhecimento que os brasileiros têm do tema é mínimo. Boa parte dele sustentado pela informação quem vem por meio de jornais sensacionalistas, apresentadores que para manterem a audiência apelam para um didatismo irresponsável, ensinando que os Direitos Humanos "só defendem bandido".


É importante ter em mente o contexto ao qual surgiu a Declaração Universal do Direitos Humanos (DUDH), onde a sua importância está em criar direitos inalienáveis a todo e qualquer ser humano, que seus 30 artigos são as premissas básicas assegurar o direito à vida e à dignidade humana.  E, principalmente, devemos encarar as propostas contidas ao longo da declaração como ideias fundamentais a serem pensadas por todos os seres humanos.

Outro ponto fundamental é que a DUDH tem como objetivo frear e supervisionar a atuação dos Estados nacionais, dessa forma, protegendo os cidadãos dos abusos e dos descasos promovidos pelos próprios países. Assim, se uma situação de violência põe em risco a vida de civis e policiais, significa que o Estado é ineficiente e com isso coloca em risco a vida de pessoas. Da mesma forma se esse mesmo Estado não consegue apresentar planos de redução das desigualdades e aumentar a distribuição de renda, intrinsecamente cria-se o ambiente propício para a proliferação da violência.

A atuação das comissões de Direitos Humanos atuam de forma ampla no combate a exploração sexual, ao trabalho infantil e ao trabalho escravo (onde as grandes empresas patrocinam essa forma de exploração); no combate à fome, ao descaso com a saúde e educação; na denúncia ao autoritarismo dos governos; contra as situação de guerra e nas crises humanitárias.

Abrir o precedente da crítica, sem o devido conhecimento, sem a linguagem e o vocabulário necessário, sem os argumentos e as reflexões fará com que a redação do ENEM se transforme no vale-tudo do senso comum, além de desestimular o próprio aluno a estudar, se informar e conhecer, afinal, a opinião pessoal não poderá ser contestada, mesmo que tenha em suas entrelinhas todo o preconceito e ódio que a própria Declaração Universal dos Direitos Humanos tenta combater, desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

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P.S.: Na cartilha do INEP para a redação estão todas as instruções para os candidatos realizarem que pretendem fazer o ENEM e que querem entender a regra de não violação dos Direitos Humanos. 
Link: http://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/guia_participante/2017/manual_de_redacao_do_enem_2017.pdf

domingo, 10 de setembro de 2017

MINHA VELHA AMIGA


Desde que me entendo por gente ela me acompanha, mas durante muito tempo eu não tinha uma denominação, eu apenas sentia. Pior fase. O fato de ser filho único, poucos ou nenhuma amizade de fato e a superproteção dos meus pais, colaboravam para que os momentos de depressão acontecessem com frequência.
Na juventude isso só piorou, com a fase de incertezas, onde a pressão dos grupos era forte e um outro agravante, a timidez. Não sei se há uma correlação entre um e outro, mas esse fatores sempre dificultaram minha vida. Depressão e timidez. Com o tempo fui aprendendo a lidar com a depressão. Às vezes, ela chegava e ficava muito tempo, outras vezes era só uma dor passageira. Naquela época como hoje, bastava um simples acontecimento e o gatilho era disparado. Pior sensação. Hoje me considero melhor, mas ainda tenho medo, ainda sofro.
Vejo que muitos dos meus alunos sofrem do mesmo problema. Nos últimos anos vi pessoas perdendo a batalha para essa doença e toda vez que isso acontece fico muito triste, pois eu sei um pouco do que a pessoa sentiu, da dor profunda.
Percebo que, na maioria das vezes, o grande problema das pessoas que possuem depressão está em casa. Há ainda muito equívoco, muito preconceito. Não se aceita o problema como uma doença. Costumam dizer que "é frescura", "é preguiça" e por aí vai. Isso quando não começam a encher a pessoa de "por quês". Pior coisa, pois nos sentimos culpados. Não, não temos culpa. Ela é mais forte, incontrolável, silenciosa.
Acredito que a questão da depressão envolve, por parte de quem quer ajudar, educação para o tema. A capacidade de escutar o outro e estar sempre que possível presente. Tal como a gripe ou o diabetes, é uma doença e precisa de atenção, principalmente num momento que os números só aumentam, assim como os casos de suicídio vêm cada vez mais tomando conta dos noticiários.
Enfim, é só um desabafo.

sábado, 5 de agosto de 2017

A TRISTEZA COLETIVA

Imagem do filme "Ladrões de bicicleta" (1948), de Vittorio de Sica


Estamos num momento de crise, isso é certo. Porém, não um simples momento de crise econômica apenas, e sim uma total crise de paradigmas, de transição, de fluidez nas relações, instituições e de tudo aquilo que tornava nosso mundo sólido e ilusoriamente "seguro".

E não hesito em afirmar que a situação não tem previsão de melhora, durará ao menos uma década ou mais. E acredite, não é uma previsão fruto de um pensamento pessimista, é apenas a verdade.

Não quero com isso aqui ficar apontando culpados, entrar no mérito da conjuntura política ou buscar explicações de como entramos nessa. A crise é geral, e por que não dizer, necessária.

Diante disso, percebo que entramos num processo de desânimo coletivo, o que denomino como uma tristeza coletiva.

Sou professor do ensino médio e percebo isso em meus alunos, desanimados com as falsas promessas, com o futuro incerto e desesperançosos com os diplomas oferecidos, que não são mais que cheques em branco.

Entre meus colegas o quadro não muda, a mesma sensação de tristeza coletiva. Desemprego, queda da renda, o custo de vida, a situação do país, que sem sinal de melhoras não permite otimismo. Nunca se falou tanto em depressão, nunca recorremos tanto a remédios e demais alternativas para enfrentamento da crise. 

Recentemente, a morte de dois astros do rock deixaram todos chocados, surpresos e preocupados. Estou falando de Chris Cornell (um dos nomes do movimento grunge) e de Chester Bennington, vocalista da banda Linkin Park. Ambos cometeram suicídio, num momento em que suas carreiras eram estáveis e que, diferente dos demais, levavam uma vida que a maioria gostaria de levar, com reconhecimento mundial, dinheiro, viagens e shows pelo mundo inteiro. 

Esses dois, entre outros tantos que eu poderia selecionar demonstram que vivemos numa sociedade onde todos precisam de cuidados, onde o debate sobre o uso e abuso de drogas (sejam elas o refrigerante comprado no mercado ou as substâncias adquiridas ilegalmente), deve passa por um questionamento filosófico de extrema urgência: afinal, que sociedade queremos?



Não tenho essas repostas, e nessa altura você deve estar pensando que esse texto é pessimista e que não vejo solução. Ao contrário, percebo que se faz necessário repensarmos nossas vidas e a forma como a conduzimos. Em linhas gerais, num momento onde a tristeza é coletiva, os enfrentamentos devem ser coletivos. A resistência deve vir dos pequenos atos, da união e da celebração de coisas simples, porém, importantes.

É necessário que conversemos mais, pessoalmente. A valorização dos encontros e reuniões de grupos, os passeios livres e descomprometidos, uma volta a um passado onde, com muito pouco, as pessoas tinham a capacidade de rir e perceber que não estavam sozinhas.

Esses pequenos atos não resolverão os problemas de toda conjuntura da crise atual, mas irão com certeza nos fortalecer para o que vem pela frente.

Pensem nisso!


domingo, 2 de julho de 2017

A ESCOLA INÚTIL



Essa semana uma notícia me deixou muito triste, para não dizer abalado. A morte de mais uma aluno, ao qual eu tive o privilégio de conviver por durante três anos.

O enredo sempre o mesmo, um assalto, um tiro, a bala, uma vítima. Morte.

Não sei dizer quantos alunos, ao longo da minha carreira se envolveram nessa tragédia cotidiana, seja do lado da vítima, seja do lado dos culpados, no caso, aqueles que se envolvem com a criminalidade. Destes últimos, o destino também não reserva grandes novidades, a prisão ou a morte.

Trabalho numa escola que acolhe esses alunos. Aliás, o que todos esses atores têm em comum é a escola. Todos passam por ela em algum momento da vida. Médicos, atendentes de telemarketing, vendedores, dentistas, comerciantes, estudantes universitários, assaltantes, vítimas.

E o que a escola faz? Nada.

É complicado perceber que a crise no sistema educacional transformou escola, como a que trabalho, em repartições públicas. Não mais que isso.

Papéis, notas, relatórios, queixas, livros de ponto, assinaturas, horários, punições, cafézinho e só. 

Educação? Não se discute muito, fica em segundo plano.

Bullying, depressão, problemas familiares, violência no bairro, situação política, a formação do cidadão, ética, cidadania, o ser, os sujeitos, o coletivo, a comunidade. Raramente entra na rotina e quando entra, sempre de forma tímida, pra não dizer quase inócua, sem repercussão.

Não culpo aqui os sujeitos envolvidos nisso (professores, funcionários e gestores), mas, há uma ordem nisso tudo. Políticos ordenam, burocratas supervisionam e vigiam, submissos obedecem.

A pergunta que fica é: para que serve uma escola que não consegue alterar o curso de vida de milhões de vida?

A lembrança que tenho desse aluno, mesmo quando não dava aula para ele era de, toda vez me ver e me cumprimentar: "E aí Alex, beleza!?". Esse gesto simples mostrava um respeito grande pela figura do professor, além de uma afinidade. Não esqueço desse gesto. Não esqueço de brincar com ele no primeiro ano, quando namorava uma outra aluna. No último ano, quando participou de um projeto das aulas de Sociologia. Estava bonito de roupa social.

Uma escola que não consegue impedir que jovens entre na criminalidade para matar outros jovens, que não consegue fazer refletir valores éticos e sociais, que não consegue mostrar alternativas e ativar no ser humano sua humanidade, é uma escola inútil, não serve para nada.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O QUE NOS RESTA EM MEIO À CRISE?



No dia 27 de Junho, a Polícia Federal suspendeu a emissão de a passaportes alegando crise orçamentária. Isso serviu para demonstrar o tamanho da crise que atinge o país, onde as liberdades individuais estão limitadas por questões econômicas.

Infelizmente, a percepção é que a crise está em todo o canto: comércios fechando; desemprego em larga escala; casas com famílias inteiras sem trabalho e sem condições de extrair renda de outras fontes; controle nos gastos; aumento da violência; enfim, a situação está caótica.


Mas, a crise não é apenas um assunto para os cadernos de economia dos jornais. Ela atinge principalmente as nossas relações e interações, atinge nossa autoestima, cria situações complicadas nos relacionamentos. Resumindo, na crise tendemos a amar menos, a brigar mais e perder as esperanças e, porque não dizer, o tesão.

Acontece que, em momentos como esses, situações provocantes surgem para re-significar o próprio sentido da vida e os rumos que devemo tomar.

O historiador francês George Duby, num livo sobre a Idade Média, argumentava que em momentos de miséria há uma solidariedade maior, pois o reconhecimento da igualdade em meio a um contexto de escassez é bem mais comum do que em momentos de prosperidade, onde pessoas se diferenciam por elementos variados.

Pois bem, uma das lições que as crises nos ensinam é a fragilidade de determinadas organizações sociais, principalmente as que se baseiam na superficialidade das relações de consumo, na ilusão de criada pela sociedade midiática, que com as redes sociais se amplia.

A crise mostra nossa pequenez diante de interesses externos, que vêm em sujeitos comuns meros números, mão de obra barata, massa de controle e muitas vezes um problema supérfluo.

Então, a pergunta que Lenin colocava: O que fazer?




A questão é que a crise nos coloca num dilema existencial, decidir se queremos jogar o jogo que nos é colocado e tentar sair dela (a crise) por meios já estabelecidos ou inverter a ordem das coisas e promover transformações que nos façam resistir.

Entendo que é preciso resistir e buscar uma nova significação para a vida, pois a crise mostra nossa fragilidade diante do sistema e pior, que realmente não temos nada e que podemos perder cada vez mais.

Assim, a única coisa que nos resta somos nós mesmos e nossa capacidade de reflexão. Porém, essa reflexão não deve se render a ilusão de um mundo hedonista, colorido e feliz, vendido amplamente na sociedade pós-moderna. Nossa reflexão deve ser capaz de nos fazer entender essa complexidade da vida, que é pautada por momentos difíceis, dor e sofrimento. É a partir dessa consciência que devemos construir um novo mundo, onde a nossa ação seja guiada em meio a reflexão de que viver é sofrer.

Somente eliminando as ilusões de uma felicidade virtual, instantânea e superficial é que poderemos, com os pés nos chão, seguir por uma vida consciente.

Conscientes da nossa fragilidade, do sofrimento e de que não temos nada, veremos que a única coisa que realmente possuímos é o outro. Então, se quero construir minha felicidade, devo contruí-la com o outro, certo que isso não é tarefa fácil em meio aos problemas.

Antonio Gramsci, pensador italiano, colocava que a palavra de ordem deveria ser o pessimismo do intelecto e o otimismo da vontade. Pois é assim que devemos encarar, uma consciência pessimista e esclarecida diante de uma realidade, caminhando ao lado de uma ação otimista, pronta para transformar a realidade.

Em meio a crise temos nossas vidas, temos uns aos outros e a pergunta que fica é: será quer precisamos de mais alguma coisa?



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