"Deus tem agora um sério concorrente" (Epitáfio para um sociólogo, José Paulo Paes)

PÁGINAS

segunda-feira, 1 de maio de 2017

TRABALHO, CAPITALISMO E CONTRADIÇÃO

Cena do filme Tempos modernos, de Charlie Chaplin


No dia 28 de Abril, o Brasil foi abalado por uma greve geral contra as propostas de reforma das leis trabalhistas expressas na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), de 1943 e, contra a proposta de reforma da previdências.

A grave teve grande adesão direta, os sindicatos falam numa participação de 35 milhões, sem contar a grande solidariedade aos que não aderiram, mas entenderam que a greve e todas as reivindicações eram justas.

- AL JAZEERA http://migre.me/wxLN0
- THE GUARDIAN http://migre.me/wxLOV
- LE MONDE http://migre.me/wxLVZ


Mas, como nada é unanimidade, e ainda bem que é assim, uma parcela significativa criticou a greve os grevistas, a atuação dos sindicatos e ainda entendem que as reformas são necessárias para o bom andamento da economia, para aumentar a contratação de desempregados e diminuir esse numero que hoje chega a 13,5 milhões, segundo o IBGE.

O grande problema de quem busca analisar as questões referentes ao trabalho - incluindo temas como emprego, salário, crescimento econômico, entre outros emas relacionados - e o de pensar sempre numa perspectiva microssocial das relações, além de pensá-las no campo de situações ideias. Não consideram o que está no cerne do próprio sistema capitalista e sua relação com o trabalho.

Não obstante, cria-se a ideia de que, se os empregadores tiverem menos tributos e maiores facilidades na hora da contratação, contratarão mais, pagarão salários melhores e promoverão um equilíbrio geral na situação econômica.

Total engano, pois o sistema capitalista (e aqui deixo claro que não faço crítica de um sistema em beneficio da ideia de outro) sobrevive à custa da própria exploração do trabalho e sua mão de obra, que são os trabalhadores. 

Um exemplo básico disso é a lucratividade dada por meio do trabalho análogo à escravidão, que é mais do realidade no Brasil, sustentada por indústria dos mais diversos setores. A lista de empresas envolvidas é grande:

Link da lista em PDF: http://migre.me/wxMaf

Para se ter uma ideia prática de como funciona esse sistema, é só assistir ao excelente documentário The true cost com direção de Andrew Morgan (disponível na Netflix), de 2015, onde aborda a indústria da chamada moda rápida, que acelera a produção o lançamento de novas roupas, a preços baixíssimos no mundo inteiro, mas que esconde uma cadeia de exploração do trabalho, custando a vida de milhares de pessoas. Além disso, o documentário aborda as consequências ecológicas e psicológicas do mundo da moda. Mas, o ponto central é ainda a terceirização dessas linhas de produção, que fica a cargo de países asiáticos, onde mulheres trabalham sem as mínimas condições.


Trailer do documentário The true cost (2015)

Mas o material para uma análise consistente sobre o tema não para por aí. Germinal, baseado no livro de Émile Zola e que depois virou filme, retrata as contradições que envolvem a luta de trabalhadores explorados nas minas de carvão e um burguesia distante dessa realidade, vivendo de maneira farta às custas da exploração desses mesmos trabalhadores.

Talvez, a maior contribuição do filme é a de mostrar o quanto a luta pelos direitos sociais são baseadas por conflitos, sempre  violentos, pois trata-se de relações de poder, onde o que detém o poder econômico dificilmente cedem ou estão aptos a negociação democrática ou consensual. 

O filme nos transporta até a atmosfera de uma época em que começam a ser discutidas a questão dos direitos sociais, a necessidade de uma organização dos trabalhadores por meio de sindicatos, as influências das ideias socialistas e face nefasta do desenvolvimento da economia capitalista.


Filme Germinal
Link para 2º parte: https://youtu.be/YxvC9Ow7T94


Outra produção importante para entender esse ciclo de exploração e a necessidade dos movimentos trabalhistas é o filme Daens - um grito de justiça, de 1992, que narra a história de um padre belga Adolf Daens e sua luta para denunciar a situação de precaridade nas fábricas, durante o século XIX, na bélgica. A preocupação do padre é em denunciar as mortes, principalmente de crianças, nas fábricas têxteis, para isso, enfrenta a burguesia da época e até a própria igreja, que compactuava com tais atrocidades, mesmo reconhecendo o problema. 


Cena do filme Daens - um grito de justiça


Em meio a tudo isso é importante perceber que os direitos não são dádivas de patrões ou da bondade humana, eles surgem a partir de lutas. Por trás de todo direito social existe uma luta histórica de atores sociais que, em algum momento, a partir da consciência se propuseram a lutar, pagando com a própria vida (muitas vezes), algo que te beneficia e você não dá o devido valor.

Outra questão importante é que, novamente, se faz necessário um olhar mais amplo para a questão, não individualizando-a ou analisando a partir das suas condições. No Brasil, por exemplo, existem uma série de questões poucos discutidas e são essenciais, como: a disparidades de salários, onde uma parcela ganha muito e outra (a maioria, ganha somente o salário de subsistência); o número de empregos informais, incentivado pelo próprio mercado capitalista; como o sistema se alimenta da exploração do trabalho; uma escala de cargos que ganham muito, onerando os cofres públicos em benefício próprio; a inflexibilidade do sistema que abre mão do seu lucro, para assim ganhar sempre mais; as altas jornadas de trabalho, que inviabiliza a contratação de mais empregados; e, o mais importantes, o crescimento de vagas para os postos de trabalho, nem sempre significa aumento na qualidade de vida de trabalhadores, uma vez que com a leis em aprovação, o grande cenário do trabalho será o do subemprego, isso, para todas a categorias.

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